
Deixar dreno de sucção após gastrectomia vertical ou bypass? O que mostram registros recentes e uma série sem drenos, e os limites dessa evidência.
Deixar um dreno de sucção fechado, como o dreno de Jackson-Pratt (JP), junto à linha de grampos ou à anastomose já foi comum após a cirurgia bariátrica. A ideia é que o dreno avise cedo sobre vazamento ou sangramento e permita drenar algumas coleções sem nova cirurgia. Na última década, muitas equipes abandonaram o dreno de rotina. Este artigo revisa a evidência recente com finalidade educativa; não define conduta para nenhum serviço.
Com que frequência os drenos ainda são usados?
O uso está caindo, mas não desapareceu. Uma análise do registro norte-americano MBSAQIP com 526.723 pacientes submetidos a cirurgia bariátrica primária entre 2020 e 2022 mostrou queda de 8,7% para 6,1%. Em cirurgias de conversão e revisão, muitas vezes mais complexas, outra análise do MBSAQIP com 64.495 pacientes encontrou drenos em 19,1% dos casos em 2020 e 14,4% em 2022. Numa pesquisa nacional polonesa de 2025, 66,7% dos centros relataram não usar dreno de rotina após a gastrectomia vertical.
O que os registros mostram
Na cirurgia primária, pacientes com dreno tiveram mais complicações após ajuste pelos fatores de risco medidos: complicações graves em 30 dias (odds ratio ajustada 1,24), fístula anastomótica (2,1), infecção de órgão/espaço (2,0), reoperação (1,2) e internação mais longa. Na revisão, a direção foi a mesma: complicações graves (1,45), vazamento (2,25), infecção (2,12) e reoperação (1,37).
Essas associações exigem cautela. Os drenos foram mais usados em pacientes mais velhos, com IMC maior e mais comorbidades, e em procedimentos com anastomose. Na revisão, fazer teste de vazamento intraoperatório também previa o uso de dreno, e os motivos do cirurgião não foram registrados. Um cirurgião preocupado com um caso difícil tende a deixar dreno, então ele pode ser marcador de risco e não causa. Os dois estudos concluem que é preciso selecionar com critério, e o de cirurgia primária pede estudos prospectivos controlados.
Experiência sem dreno de rotina
Uma série de um único cirurgião publicada em 2026 incluiu 1122 cirurgias bariátricas primárias e revisionais realizadas entre 2018 e 2024 sem drenos, dentro de um protocolo ERAS. A morbidade em 30 dias foi de 3,2%. Houve vazamento em 5 pacientes (0,4%) e sangramento digestivo em 13 (1,2%), e mais de 92% tiveram alta no primeiro dia. A maioria dos eventos graves surgiu depois do período em que um dreno normalmente já teria sido retirado. Por ser de um único cirurgião, pode não refletir outros contextos.
Rotina, seletivo ou nenhum?
Em conjunto, a evidência pende contra o dreno profilático de rotina na cirurgia bariátrica primária. Não prova que o dreno nunca seja útil: nenhum estudo foi randomizado, e alguns cirurgiões mantêm uso seletivo em casos de maior risco ou revisão. Quando usado, são comuns os sistemas fechados de dreno de sucção; o essencial é indicação clara, plano de controle do débito e retirada no momento certo. O dreno não substitui a vigilância clínica, pois muitas complicações aparecem após a alta.
Este artigo tem finalidade educativa geral para profissionais de saúde e não constitui aconselhamento médico. A decisão de drenar cabe ao cirurgião e à equipe multidisciplinar.
Fontes: - Meyer DJ et al. Modern Trends of Drain Placement in Primary Bariatric Surgery: An MBSAQIP Analysis of 526,723 Patients. Obes Surg 2025 (doi:10.1007/s11695-025-07760-5) - Meyer DJ et al. Drain placement in conversional and revisional bariatric surgery, MBSAQIP 2020 to 2022. J Clin Med 2025 (doi:10.3390/jcm14072456) - Hsu JL et al. Feasibility and Outcomes of a Uniform Drain-Free Strategy for Primary and Revisional Metabolic Bariatric Surgery under an ERAS Protocol. Obes Surg 2026 (doi:10.1007/s11695-026-08599-0) - Sroczyński P et al. Technical variability and safety of sleeve gastrectomy: a nationwide survey of bariatric centers in Poland. Videosurgery 2025 (doi:10.20452/wiitm.2025.17954)